Principais dados do relatório da ONU sobre drogas: tendências globais e cenário brasileiro.

O Relatório Mundial sobre Drogas publicado pela ONU em 2024 apresenta dados alarmantes sobre o consumo de substâncias psicoativas em escala global.
A pesquisa destaca o aumento expressivo no uso de drogas sintéticas, a crescente complexidade no tratamento da dependência química e os desafios enfrentados por profissionais de saúde para lidar com essa nova realidade.
Um dos pontos mais impactantes do relatório é o aumento expressivo das drogas sintéticas, que passaram de 162 substâncias em 2010 para mais de 566 em 2022.
Esses compostos, muitas vezes criados em laboratórios clandestinos, são projetados para simular os efeitos de drogas convencionais, mas com potenciais devastadores e efeitos colaterais imprevisíveis.
Os canabinoides sintéticos, por exemplo, estão entre as substâncias mais preocupantes.
Variedades como K2 e K9 apresentam uma concentração muito mais alta de tetra-hidrocanabinol (THC), principal substância psicoativa da maconha, causando um impacto severo no desenvolvimento cognitivo, principalmente em jovens e adolescentes.
Outro grupo que preocupa os especialistas são os opioides sintéticos, como o fentanil, que têm sido responsáveis por uma crise de overdose em vários países.
Esses opioides podem ser até 50 vezes mais potentes que a heroína, tornando o tratamento da dependência ainda mais desafiador.
O uso global de drogas aumentou 20% na última década, segundo os dados do relatório.
Hoje, mais de 290 milhões de pessoas fazem uso de alguma substância psicoativa, sendo que cerca de 64 milhões desenvolvem transtornos relacionados à dependência química.
As drogas mais consumidas globalmente incluem:
Os impactos desses números vão muito além do indivíduo. A violência relacionada ao tráfico, o crescimento das redes criminosas e o colapso dos sistemas de saúde em diversas regiões do mundo estão diretamente ligados ao aumento no consumo e na produção dessas substâncias.
O Relatório Mundial sobre Drogas também ressalta as dificuldades no tratamento da dependência química.
Com o aumento das drogas sintéticas, os profissionais de saúde enfrentam novos desafios, pois muitas dessas substâncias possuem composições químicas desconhecidas e efeitos variáveis.
Além disso, muitas substâncias são comercializadas em formatos diferentes, como pílulas, vapers e chocolates, o que dificulta a identificação por parte de familiares e até mesmo dos usuários, que muitas vezes desconhecem completamente a composição do que estão consumindo.
Outro problema destacado é que, devido à rápida evolução das drogas sintéticas, os protocolos de tratamento precisam ser constantemente adaptados. Isso significa que muitos centros terapêuticos e instituições de saúde ainda não estão totalmente preparados para lidar com essas novas substâncias.
Outro ponto relevante do estudo é o aumento do consumo de drogas entre mulheres. Apesar de os homens ainda representarem a maioria dos usuários, o número de mulheres que fazem uso de substâncias psicoativas tem crescido consideravelmente.
O relatório aponta que apenas 1 em cada 18 mulheres usuárias de drogas está em tratamento, enquanto entre os homens, esse número é de 1 em cada 7.
Isso ocorre, em parte, devido às barreiras culturais e sociais que dificultam o acesso das mulheres ao tratamento, incluindo estigmas, preconceitos e responsabilidades familiares que muitas vezes impedem a busca por ajuda.
Outro ponto abordado é a legalização da maconha em alguns países.
No Uruguai, por exemplo, a venda é regulamentada, e a maconha comercializada em farmácias contém cerca de 5% a 6% de THC, acompanhada de canabidiol (CBD), que ajuda a equilibrar os efeitos psicoativos.
Entretanto, no mercado clandestino, muitas variedades têm até 16% a 17% de THC e praticamente zero CBD, tornando a substância muito mais potente e prejudicial.
Esse fenômeno também ocorre em estados dos EUA onde a maconha foi legalizada, gerando um mercado paralelo de produtos com concentrações altíssimas de THC.
O estudo alerta que a exposição precoce ao THC pode impactar o desenvolvimento neurológico, especialmente em adolescentes, aumentando os riscos de transtornos psiquiátricos, como esquizofrenia e depressão.
O Relatório Mundial sobre Drogas publicado pela ONU revela um cenário preocupante e destaca a necessidade de um maior investimento em políticas públicas, prevenção e tratamento da dependência química.
Com a crescente diversificação das drogas sintéticas e a normalização do consumo de substâncias psicoativas, é essencial que governos, instituições de saúde e sociedade civil se mobilizem para enfrentar essa crise.
A prevenção, a conscientização e o acesso a tratamentos eficazes são fundamentais para conter essa epidemia global.
Leia mais em português: https://www.unodc.org/lpo-brazil/pt/frontpage/2024/06/relatorio-mundial-sobre-drogas-2024-do-unodc-alerta-para-o-crescimento-do-problema-das-drogas-no-mundo-em-meio–expanso-do-uso-e-dos-mercados-de-drogas.html
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Sobre o autor
Heberson Oliveira
Biológo formado pela UFG, atualmente Chefe da Equipe de Treinamento para Clínicas de Recuperação e compartilha dicas aqui no blog do Portal.
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